Não consegues dar conta de tudo?
Seja qual for a tua profissão — médico, enfermeiro, marketeer, professor, programador, assistente administrativo, bombeiro — chega uma fase da vida, muitas vezes entre os 30 e os 40 anos, especialmente quando tens filhos, em que começas a sentir que não consegues dar conta de tudo.
Sentes-te assoberbado.
Spoiler: se “dar conta de tudo” significar trabalhar, fazer exercício como a Carolina Patrocínio, manter a casa como a Marie Kondo, investir na bolsa e ainda ter energia para socializar e ser totalmente presente e paciente com os teus filhos… então não, não vais conseguir.
Mas se “dar conta” significar ter algumas áreas essenciais da tua vida preenchidas — as que realmente importam para ti — então sim, consegues. Só precisas de aprender a definir prioridades, flexibilizar expectativas e conhecer-te melhor.
Praticar mindfulness — que, simplificando, é criar espaço no teu dia para estares contigo mesmo — pode ser um ponto de viragem. Parar alguns minutos, respirar fundo, escutar o corpo, baixar o ruído interno. Mesmo que sejam apenas cinco minutos por dia.
Estas práticas estão associadas a maior bem-estar e melhor regulação emocional, algo essencial para quem cuida de crianças e de múltiplas responsabilidades ao mesmo tempo.
Partilho um pouco da minha história.
Sou mãe desde 2017 e voltei ao trabalho cinco meses depois do nascimento da minha bebé, como se nada tivesse mudado. Trabalhei sem parar entre 2020 e 2025, como se não tivesse filhos.
Foram anos de grande responsabilidade, gestão de pessoas, e uma vida em aceleração constante. Até que comecei a sentir que já não conseguia dar conta de tudo.
Sentia-me mal, infeliz, assoberbada, insatisfeita, triste, irritada, impaciente. Queria mais, mas nem sabia exatamente o quê.
Mais tarde percebi: eu estava a precisar de casa. De pertença. De fazer as coisas devagar. De não comer a correr. De não viver constantemente a tentar chegar a tudo — trabalho, casa, filhos — e sentir que falhava sempre em algum lado.
Acabei por chegar a um esgotamento. Uma situação difícil, mas também um ponto de viragem.
Deixei um trabalho que me tinha realizado profundamente, mas onde não existia flexibilidade. As deslocações longas e a ausência de modelos híbridos tornaram tudo mais pesado do que conseguia sustentar.
Mais tarde, encontrei outro trabalho mais perto de casa, que trouxe alguma estabilidade. Ainda assim, as emoções acumuladas continuavam presentes. Aguentei mais três anos e cheguei a um acordo para sair.
Foi aí que percebi algo essencial: não precisava de fazer mais. Precisava de parar e olhar para dentro.
Ainda iniciei um processo de reskilling numa nova área — e estava a ter bons resultados — mas percebi a tempo que estava a repetir o mesmo padrão de sempre: preencher o vazio com mais desempenho.
Parei.
Durante meses, dediquei-me a mim, à minha família, à casa. Voltei à criação, à criatividade, ao ritmo mais lento.
Foi nesse espaço que surgiu a parentalidade consciente — algo que já fazia parte da minha vida, mas que nunca tinha estudado de forma estruturada.
Estudei comunicação/parentalidade consciente e neuroestratégia. E algo começou a mudar profundamente: menos reatividade, mais capacidade de autorregulação, mais consciência de mim e da relação com os outros.
E, sobretudo, surgiu a vontade de partilhar isto porque percebi algo simples: somos mais do que o papel de profissionais, ou até mesmo mães ou pais.
Se chegaste até aqui, não estás sozinho/a.
Muitas vezes não é falta de ajuda — é que, biologicamente, não fomos feitos para viver em aceleração constante. Temos ritmos próprios, especialmente enquanto mulheres, e precisamos de aprender a reconhecê-los e respeitá-los. Sem isso, acabamos por chegar a estados de exaustão que poderiam ser evitados.
Eu cheguei lá e hoje escrevo isto para que não tenhas de chegar ao mesmo ponto.
Se isto ressoa contigo, fica por aqui. Vou continuar a partilhar este caminho.
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